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Lula do Velho Testamento

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Redação Front
07/04/2026
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Durante as eleições de 2002, Lula escreveu um dos documentos históricos mais importantes da política brasileira, a ‘Carta ao Povo Brasileiro’.

Nessa carta ele assumia 3 compromissos principais:

1 - Caso ganhasse a eleição, seu governo honraria todos os contratos vigentes e compromissos financeiros (não haveria moratória);

2 - Seu futuro governo manteria o equilíbrio fiscal e o controle da inflação;

3 - Seu futuro governo combateria a fome e a pobreza, mas dentro dos caminhos ortodoxos da economia.

Essa carta tinha como objetivo acalmar os mercados, que estavam bastante preocupados com a provável vitória de Lula naquela eleição. A partir desse documento é que nasceu o chamado ‘Lulinha Paz e Amor’, que abandonou o discurso mais radical de esquerda e abraçou o pragmatismo de centro-esquerda.

Com a publicação da carta, os ânimos do Mercado se acalmaram e Lula venceu as eleições de 2002.

Esse estilo ‘Lulinha Paz e Amor’ foi um trunfo poderoso para o então presidente que obteve aprovação da maioria dos brasileiros, exceto por dois grupos: os mais à esquerda e os mais à direita.

Para os mais à direita, nada do que Lula fizesse ou falasse ajudaria. O ‘sapo barbudo’ representava tudo o que eles abominavam. Para os mais à esquerda, o diagnóstico era claro: eles sentiam falta do Lula do Velho Testamento.

Não à toa, logo nos primeiros momentos de governo, Lula viu parte do partido rachar à esquerda e nascer o PSOL, com ex-petistas indignados com a reforma da previdência proposta pelo governo Lula.

Passados 20 anos, nas eleições de 2022, Lula novamente se ‘abriu ao novo’. Dessa vez não houve uma carta de intenções para o Mercado, mas houve uma sinalização à democracia quando Alckmin foi o escolhido para candidato a vice-presidente.

Tal sinalização buscava mostrar que o jogo agora não era uma batalha pela economia, mas uma batalha pela democracia. Dois antigos adversários se unindo para derrotar o mal maior. A aposta deu certo. A frente ampla agregou de Guilherme Boulos a Simone Tebet e impediu um segundo (e perigoso) mandato de Jair Bolsonaro.

Mesmo com tantas concessões, neste 3º mandato, Lula não viu sua governabilidade facilitada. Pelo contrário, com o Congresso tendo controle sobre grande parte do Orçamento Federal através das emendas, o governo percebeu que a correlação de poderes mudou. Que o poder de barganha do poder executivo diminuiu drasticamente. Tal conclusão levou o governo federal a patrocinar algumas campanhas contra o Congresso. Em meados de 2025 a hashtag #CongressoInimigoDoPovo mobilizou a esquerda de maneira rara. A votação da PEC da Blindagem foi a gota d’água para parcela da população que foi às ruas em peso, com apoio do governo federal.

Ao perceber que o poder relativo está diminuído, Lula ensaia trocar o figurino de Lulinha Paz e Amor pelo traje de Lula do Velho Testamento. O presidencialismo de coalizão já não tem efeito eleitoral como teve no passado. A Frente Ampla pela democracia não terá, em 2026, o peso que teve em 2022. Mesmo com isso tudo em mente, Lula tenta para essas eleições a criação de uma chapa PT/MDB, com Renan Filho de vice. As más línguas dizem até que poderia surgir uma chapa PT/PSD, com Kassab de vice. Caso nenhuma dessas chapas se confirme, sobrará a Lula a manutenção da chapa PT/PSB, com Alckmin se mantendo ao lado de Lula.

A manutenção da parceria entre PT/PSB pode fazer Lula radicalizar o discurso e encampar uma narrativa anti sistema. Nesse caso, o sistema seria representado pelo Congresso e pela Faria Lima. Em oposição à definição de sistema da extrema-direita, que é representado pelo STF, pela mídia e pelo petismo.

Muito dependerá da formação de chapa para a vice presidência. Se Lula estiver ao lado de Kassab ou de um figurão do MDB, terá dificuldades de radicalizar o discurso. Caso se mantenha em parceria com o PSB, existe uma chance de o Lula de 2026 ficar muito parecido com o Lula de 1989. Numa aposta de que a população compraria o discurso anti sistema

Em 1989 não funcionou, mesmo com Lula sendo, de fato, de fora do sistema. Será que em 2026, com Lula sendo completamente associado ao sistema, tal postura vai dar resultados?

Trata-se de uma aposta arriscada. O que trouxe vitórias ao Lula nas últimas décadas foi um comportamento muito bem definido por Leonel Brizola:

“O PT é tipo uma galinha: cacareja pra esquerda, mas bota ovos pra direita”

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